sexta-feira, 31 de julho de 2009

Amália Rodrigues Faz Hoje 40 Anos De Carreiro


A popularidade de Amália enquanto cantora nascera das suas actuações em casas de fado, mas também das suas presenças no teatro musicado popular (revista ou opereta), onde aliás criara alguns dos seus maiores sucessos. Num meio cultural e musical razoavelmente pequeno, seria uma questão de tempo até o cinema se interessar por esta voz que arrastava multidões. Tudo começaria por uma falsa partida: António Lopes Ribeiro convida Amália para entrar em "O Pátio das Cantigas" (1941). "Chumbada" pelo maquilhador do filme - conforme Pavão dos Santos cita na sua biografia da cantora - só em 1946 surgirá uma nova oportunidade.
Ao lado de Alberto Ribeiro, galã da canção popular dos anos 40, Amália surge no melodrama de Armando de Miranda "Capas Negras" que, à sua estreia em Maio de 1947, bate todos os recordes de bilheteira da altura, com cinco meses consecutivos em cartaz.
"Fado: História D'Uma Cantadeira" - o pretexto de todo este dossier, e que se aborda mais em profundidade aqui ao lado - é o filme seguinte na carreira de Amália, outro triunfo comercial do qual a actriz-cantora não gostava especialmente, sobretudo devido àquilo que considerava o artificialismo dos diálogos e situações, alegadamente inspirados na sua própria vida (o que não passou de uma manobra publicitária).
Logo nestes filmes se cristalizou a Amália-actriz como uma vedeta à volta da qual se montavam os filmes, escolhida não pelo seu talento de actriz (que, aliás, os guiões nem sequer exploravam) mas pela sua popularidade e pelo seu valor de bilheteira. Essa imagem é confirmada pelas suas presenças em "Sangue Toureiro" (1958), de Augusto Fraga, e "Fado Corrido" (1964), de Jorge Brum do Canto - filmes dos quais a própria Amália tinha má impressão e que fez em parte por amizade pelos realizadores, embora considerasse que em "Fado Corrido" conseguira criar "uma presença completamente diferente de mim" - e "Os Amantes do Tejo" (1955), de Henri Verneuil, parcialmente rodado em Lisboa. O filme de Verneuil dava a Amália um papel secundário razoavelmente importante, mas a sua escolha por parte dos produtores franceses ficara a dever-se essencialmente aos seus dotes vocais e à sua crescente popularidade internacional.
As "anomalias" neste retrato de uma Amália-actriz limitada pelos papéis que lhe eram oferecidos são duas, ambas estrondosos insucessos comerciais. A primeira é "Vendaval Maravilhoso" (1949), ambiciosa co-produção luso-brasileira dirigida por Leitão de Barros onde se traçava o retrato de Castro Alves, poeta brasileiro dedicado à abolição da escravatura. Vedeta incontornável em ambos os países, Amália já não era aqui uma variação sobre a sua própria imagem pública mas uma figura histórica, Eugénia da Câmara, "modificada" o suficiente para lhe permitir criar o "Fado Eugénia da Câmara" que se tornaria num dos seus clássicos deste período. Mas o filme (invisível hoje por se ter perdido o negativo original, existindo apenas uma cópia de imagem) é um monumental fracasso que levaria Leitão de Barros a abandonar o cinema.
A segunda é o "adeus" de Amália ao cinema, já que depois de "As Ilhas Encantadas" (1965) não voltaria a filmar. Adaptando uma novela de Herman Melville, o filme de Carlos Vilardebó encaixaria hoje na definição de "arte e ensaio", mas na altura foi um insucesso de bilheteira, defrontando a perplexidade de um público que esperava reencontrar nele a Amália de todos os dias e descobria antes uma actriz dando corpo a uma personagem. Ironicamente, este filme valeria a Amália o Prémio do Secretariado Nacional de Informação (estrutura de propaganda do regime salazarista) para Melhor Actriz, prémio que a cantora bisava vinte anos depois de "Fado - História duma Cantadeira"?
Amália participou ainda como convidada especial em "Sol e Touros" (1949), de José Buchs, para interpretar no ecrã o "Fado do Silêncio", e teve vários outros projectos cinematográficos que ficaram por concretizar. Alguns deles acabariam por ir para a frente com outras actrizes no papel destinado originalmente a Amália ("Eram Duzentos Irmãos" ou "Les Lavandiéres du Portugal") enquanto outros nunca passaram da intenção (a adaptação de "Bodas de Sangue", de Garcia Lorca, que Anthony Quinn desejava produzir propositadamente para Amália, gorada por questões de direitos).
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A nossa rainha do fado não foi e nem chegará a ser esquecida, mas é mesmo nunca.
Beijinhos e um bom fim de semana a todos.

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